15.2.09

Não somos mais.

Meu corpo foi mudando, é o vento passando veloz por nós. Sentia a idade pesar nas costas curvadas, nos seios murchos e caídos. As mulheres sofrem com essas mudanças, esperadas mas sempre rejeitadas. O corpo havia mudado, e isso era óbvio, era claro. Os poucos olhares que me seguiam na rua já não existem mais. Fui me tornando seca, branca, mole. E não há nada que possa ser feito, sequer lamentar pois não admito risos ou julgamentos, se sou produto da sociedade és também, hipócrita!
São marcas, marcas da vida que eu não queria ter vivido. É triste quando tarde, se descobre que não viveu, de tantas teses e tantas palavras sobraram apenas os sonhos, eróticos ou não, acordados. O sexo murcho, o sexo frouxo, inexistente. Lutei contra instintos que, só agora percebo, são essenciais para a vida humana. O prazer e o gozo tornados culpa, por uma cultura cristã e pelo ódio à uma cultura fabricada. Entre as duas facas, fiquei sem viver. Na madeira mesmo.
Tudo caí, tudo morre, e continuamos carregando nossos mortos, pesados. O passado que a cada recordação me faz sentir uma imensa dor no estômago, não por doença, mas porque é ali que gostaria de cravar a faca para morrer aos poucos, revivendo o gosto do arrependimento e da vergonha, da falta de coragem.Coragem, tão murcha quanto a pele, vontade enrugada como o rosto – pele mole, pelanca.

14.2.09

De deseo somos.

"La vida, sin nombre, sin memoria, estaba sola. Tenía manos, pero no tenía a quién tocar. Tenía boca, pero no tenía con quién hablar. La vida era una, y siendo una era ninguna.
Entonces el deseo disparó su arco. Y la flecha del deseo partió la vida al medio, y la vida fue dos.
Los dos se encontraron y se rieron. Les daba risa verse, y tocarse también."

Eduardo Galeano.

13.2.09

Cacos de uma xícara quebrada.

"O projeto milenar masculino, que consistia em tirar da sexualidade qualquer conotação afetiva para relegá-la ao campo do divertimento puro, havia enfim, nessa geração, conseguido se materializar. O que eu sentia aqueles jovens não eram capazes nem de sentir, nem de sequer compreendê-lo exatamente, e se o fossem teriam experimentado uma espécie de embaraço, como diante de algo ridículo e vexaminoso, como diante de um estigma de tempos mais antigos. Tinham conseguido, após décadas de condicionamento e tentativas tinham finalmente conseguido extirpar de seus corações um dos mais antigos sentimentos humanos, e agora estava feito, o que fora destruído não poderia mais ser reconstruído, assim como cacos de uma xícara quebrada não podem se reagrupar por si só, tinham atingido seu objetivo: em nenhum momento de suas vidas conheceriam o amor. Eram livres."

Michel Houellebecq